4. INTERNACIONAL 28.11.12

1. A BARBARIE VENCEU
2. A GUERRILHEIRA-PROPAGANDA

1. A BARBARIE VENCEU
O Hamas usou os oito dias de conflito com Israel, interrompido por um cessar-fogo na semana passada, para obter legitimidade externa e intensificar o clima de terror que impe  prpria populao.
TATIANA GIANINI, DE TEL-AVIV, E NATHALIA WATKINS

     No instvel Oriente Mdio, em que as disputas misturam nacionalismo, etnia, religio e lealdades tribais, os extremos sempre ganham. Onde ningum tem razo, mas todos acham que tm,  impossvel encontrar um lado imaculado. Os maiores culpados pelo mais recente episdio de agresso entre israelenses e palestinos, porm, so bem conhecidos. Na semana que antecedeu o incio do bombardeio da Faixa de Gaza, um territrio palestino, Israel havia sido alvo de 120 foguetes, lanados pelo Hamas e por outros grupos islmicos ainda mais tenebrosos. Foram os islamistas que dominam a ferro e fogo a Faixa de Gaza, portanto, que comearam com tudo. O governo israelense poderia ter decidido no revidar  provocao, evitando assim a morte de mais de 100 palestinos, alvejados por seus caas, e de seis israelenses, vtimas dos foguetes do Hamas? Sim, mas at quando? Em algum momento, Israel teria de fazer algo para proteger sua populao. Eis a principal diferena entre os dois lados do conflito, interrompido na quarta-feira passada por um acordo de cessar-fogo. Israel tem um freio moral contra a morte de civis. O Hamas, no. E a razo para isso  que Israel  uma democracia, cujo governo tem de prestar contas aos seus eleitores e  comunidade internacional. J o Hamas comanda uma microditadura em que a morte de civis tem sempre um uso possvel  do lado inimigo, para espalhar o terror, e do lado amigo, para servir como propaganda de guerra ou para intimidar opositores domsticos.
     Os fatos falam por si. Quando seus foguetes mataram civis israelenses, como ocorreu seis vezes nos oito dias do recente confronto, o Hamas comemorou. J nos ataques areos de Israel, batizados de operao Pilar da Defesa, os 1500 alvos atingidos na Faixa de Gaza eram, em sua maioria, reas usadas para lanar msseis, casas de membros da elite do Hamas e armazns de armas, identificados previamente pela inteligncia israelense. Muitos desses arsenais ficavam escondidos estrategicamente em edifcios residenciais  ttica usada pelo Hamas para inibir os ataques e que, quando Israel resolve mandar s favas os escrpulos, cria mrtires cujos corpos so expostos nas ruas para servir como propaganda e trazer ao grupo palestino a simpatia de incautos mundo afora. Segundo confirmaram diversos moradores da Faixa de Gaza, as foras israelenses chegavam a alertar os civis palestinos para que conseguissem abandonar suas casas antes de um ataque iminente, por meio de mensagens de texto enviadas para os seus celulares. A liderana do Hamas, indiferente ao destino de seu povo, dizia que tudo no passava de uma ttica psicolgica do inimigo sionista e ordenava s pessoas que permanecessem em seus lares, apesar do risco de bombardeio. Mas os resultados das guerras podem ser to irracionais quanto suas motivaes, e, no balano geral, o Hamas saiu desse conflito fortalecido. Primeiro, porque conseguiu se colocar como representante legtimo dos palestinos em negociaes internacionais. Segundo, porque se aproveitou da situao para sufocar um pouco mais a dissidncia interna. Na tera-feira passada, seis palestinos foram executados sumariamente por militantes do Hamas na Faixa de Gaza, acusados de colaborar com Israel. Seus corpos, amarrados a motocicletas, foram arrastados pelas ruas, sob o olhar da populao.
     No campo diplomtico, o Hamas ganhou ao ter como mediador do cessar-fogo o presidente do Egito, Mohamed Mursi. Eleito em junho deste ano, dezesseis meses aps a queda do ditador Hosni Mubarak, Mursi  membro da Irmandade Muulmana, grupo radical islmico que deu origem ao Hamas, em 1987. Mursi, longe de desejar o bem de Israel, por ora quer paz na vizinhana para assegurar o poder em casa. Tanto que, apenas dois dias depois de acertar a trgua entre Israel e Hamas e de receber elogios do presidente Barack Obama, Mursi baixou um decreto dando imunidade judicial aos atos de seu governo e da Assembleia Constituinte, a qual  dominada por seus prceres islamistas. Isso significa que poder mandar e desmandar sem ser contestado pela Corte Suprema do pas. Alm de reforar a sua proximidade com o governo egpcio, o Hamas recebeu o apoio da Turquia e de doze pases da Liga rabe. A vitria, no caso, no foi o fato de os governos rabes terem ficado contra Israel, mas sim de o Fatah, o partido palestino secular que governa a Cisjordnia, o outro territrio palestino, ter sido completamente ignorado nas conversas multilaterais. Isso  significativo porque, at recentemente, o Fatah, por sua posio moderada e aceitao internacional, era considerado o nico interlocutor possvel entre os palestinos.
     O Hamas tambm revelou uma fora redobrada no campo militar. Pela primeira vez, conseguiu lanar foguetes que alcanaram cidades at ento consideradas seguras, como Tel-Aviv e Jerusalm. No houve mortes. Na quarta-feira passada, um atentado em um nibus de Tel-Aviv deixou 21 feridos, algo que no ocorria na cidade desde abril de 2006. Em Israel, 29% da populao acredita que o Hamas ganhou o conflito. Apenas 20% dizem que foi Israel. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, conhecido como Bibi, s marcou um ponto a favor: o sucesso do sistema antimssil Iron Dome. Israel investiu e produziu cinco unidades mveis capazes de lanar msseis que perseguem e inutilizam os foguetes do Hamas no ar (veja o quadro ao lado). Ao longo dos oito dias da operao Pilar da Defesa, 421 deles foram destrudos. A populao israelense, contudo, sabe que essa ameaa s acabar quando o Hamas for apeado do poder. O cessar-fogo foi positivo, mas  uma questo de tempo at que sejamos vtimas de mais ataques, diz o contador Eran Frank, de 32 anos, em Tel-Aviv, enquanto espera para tomar um nibus da mesma linha atingida pelo atentado trs dias antes. Uma invaso militar israelense por terra, a nica maneira de tirar o Hamas do poder, resultaria em um nmero maior de mortos e derrubaria a popularidade do governo de Bibi. Foi o que aconteceu em 2008 e 2009, durante a operao Chumbo Fundido, em que Israel invadiu Gaza e ficou l por 22 dias. Um pouco antes disso, o Hamas havia dado um golpe de estado e expulsado o Fatah da Faixa de Gaza. Paradoxalmente,  com esse grupo autoritrio que Israel tem aceitado negociar quando necessrio, enquanto o Fatah no tem voz. Se Netanyahu avanasse nas conversas com Mahmoud Abbas, do Fatah, seria obrigado a fazer concesses dolorosas, como permitir uma capital palestina em Jerusalm Oriental, diz o historiador americano Aaron David Miller, do Wilson Center, em Washington. No instvel Oriente Mdio, os israelenses e o Hamas parecem ter chegado a uma triste estabilidade, com bombardeios regulares e nenhuma negociao de paz.

UM ESCUDO NAS NUVENS
Como funciona o sistema antimssil de Israel que, em oito dias, interceptou 421 foguetes e protegeu a populao civil.

1- RADAR - Detecta os foguetes palestinos e transmite essa informao  unidade de gerenciamento.
2- UNIDADE DE GERENCIAMENTO - Calcula as provveis rotas dos foguetes. Se algum est para cair em uma rea habitada, os lanadores so acionados. Esse processo leva fraes de segundo quando se trata de proteger uma cidade prxima  fronteira com Gaza. Se o alvo for mais distante, como Tel-Aviv, o Iron Dome poder se dar ao luxo de demorar alguns segundos para ordenar o disparo, aumentando a chance de acerto.
3- LANADORES - O Tamir, mssil interceptador,  mais rpido que os foguetes palestinos. Ele inicia seu percurso guiado por informaes fornecidas pela unidade de gerenciamento e, no meio do caminho, aciona o prprio radar. A poucos metros do alvo, o Tamir explode.
Mssil Tamir: ndice de acerto hoje 90%; Previso para 2014 97%.
Os msseis Patriot, usados para proteger Israel durante a Guerra do Golfo, tinham uma taxa de acerto de 40%.
Preo unitrio (em dlares): Tamir 40.000; Qassam 800.

O PODER DE FOGO DO HAMAS
O arsenal do grupo palestino  estimado em 10.000 foguetes. As cores no mapa indicam o alcance dos diferentes projteis usados para atacar Israel.
Morteiro  alcance 10 Km
Qassam  alcance 18 Km
Grad  alcance 20 Km
Novo Grad  Lacance 48 Km
Fajr  alcance 75 Km
FOGUETE DO HAMAS: Um foguete do Hamas demora entre 15 e 40 segundos para alcanar uma cidade israelense.

MENOS FATAL
A operao militar de Israel, interrompida por cessar-fogo na semana passada, foi a segunda em quatro anos que tentou conter os foguetes lanados por terroristas palestinos. A comparao entre os dois episdios mostra que a tecnologia militar israelense conseguiu reduzir a morte de civis.

Msseis lanados contra Israel: Chumbo Fundido (dezembro de 2008 e janeiro de 2009) 660; Pilar da Defesa (novembro de 2012) 1506.
Ataques israelenses a Gaza: Chumbo Fundido (dezembro de 2008 e janeiro de 2009) 2200; Pilar da Defesa (novembro de 2012) 1500.
Palestinos mortos: Chumbo Fundido (dezembro de 2008 e janeiro de 2009) 1397; Pilar da Defesa (novembro de 2012) 139.
Israelenses mortos: Chumbo Fundido (dezembro de 2008 e janeiro de 2009) 13; Pilar da Defesa (novembro de 2012) 6.
Durao do conflito: Chumbo Fundido (dezembro de 2008 e janeiro de 2009) 22 dias; Pilar da Defesa (novembro de 2012) 8 dias.
Invaso por terra: Chumbo Fundido (dezembro de 2008 e janeiro de 2009) 8 dias; Pilar da Defesa (novembro de 2012) No houve.

COM REPORTAGEM DE TAMARA FISCH


2. A GUERRILHEIRA-PROPAGANDA
Uma holandesa cabea de vento ajuda os terroristas das Farc a enganar o governo colombiano nas negociaes de paz.

     Dez anos aps o fracasso das ltimas negociaes de paz, o governo colombiano e os terroristas das Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (Farc) sentaram-se novamente  mesma mesa para tentar dar fim ao conflito armado. Das conversas, que comearam em Havana na segunda-feira 19 e tiveram como fiadores Cuba, Noruega, Venezuela e Chile, participaram membros do governo colombiano e comandantes das Farc, como Ivn Marquez e Jess Santrich, quase cego. A atrao principal, contudo, foi a holandesa Tanja Nijmeijer. que em 1998 viajou  Colmbia para dar aulas de ingls e acabou flertando com o grupo. Estou h dez anos casada com o exrcito do povo e estou me saindo muito bem, disse a nica integrante europeia do bando. Pode-se imaginar em que ela est se destacando. As Farc vivem do sequestro de cidados, da extorso aos pequenos comerciantes, das redes de prostituio e do narcotrfico. Esto envolvidas na superviso do cultivo das plantas de coca e na exportao da cocana para a Venezuela e o Equador, de onde partem para outros mercados. So atividades que elas at agora no falaram em abandonar. Nas negociaes em Havana, o grupo fez exigncias absurdas, daquelas que se fazem quando se quer melar qualquer acerto. Pediu o fim dos tratados de livre-comrcio com outros pases e uma mudana radical na doutrina militar. O grupo nem sequer falou no essencial, ou seja, na disposio de depor as armas, e ainda aproveitou o palanque para fazer propaganda gratuita e esconder sua real identidade. Diz o cientista poltico ingls Nicholas Watson, da consultoria Control Risks, em Bogot: Tanja  uma distrao. S entrou nas negociaes para convencer a esquerda europeia de que as Farc so uma entidade exclusivamente poltica e para esconder suas atividades criminosas.
     No futuro, ainda que o governo colombiano consiga um compromisso para desmobilizar parte da guerrilha, pouca coisa deve mudar. As drogas rendem 3 bilhes de dlares por ano s Farc. O dinheiro  distribudo entre 30.000 pessoas, envolvidas direta ou indiretamente no negcio. Dificilmente elas largariam algo to lucrativo por uma ideologia vencida. 
NATHALIA WATKINS


